O QUE FAZ UMA CIDADE SER BOA PARA MORAR (E PARA QUEM)? MINHAS IMPRESSÕES SOBRE MONTEVIDÉU, NO URUGUAI.

Analisar uma cidade é uma tarefa complexa que envolve múltiplos fatores e, por isso, falar das minhas impressões sobre as cidades que conheço e vivencio por algum tempo, ainda que exíguo, não pode ser considerada propriamente uma análise, mas uma percepção pessoal do espaço, ainda que para tanto existam alguns critérios objetivos. A investigação sempre parte de uma vivência e observação pessoal. Geralmente viajo sozinha e sou responsável pela organização de toda viagem e o foco sempre é Arquitetura e Urbanismo. Isso inclui pesquisa prévia, estudo, seleção de lugares e também um roteiro não rígido com espaço para muitas caminhadas aleatórias.

Roberta Saldanha-Montevideu

Montevidéu tem requisitos que a fazem um bom lugar para viver. Uma cidade com uma vida urbana pulsante e cheia de espaços públicos. Um lugar com gente na rua e, quando não, o caminhar nem de longe transmite aquela sensação de insegurança tão comum para brasileiros, especialmente mulheres sozinhas. Concluí recentemente uma pós-graduação em urbanismo e tive a oportunidade de ter aulas com Jan Gehl, arquiteto e urbanista dinamarquês conhecido mundialmente por seus livros e trabalhos. Segundo Gehl, o principal sinal de habitabilidade de uma cidade é a presença de crianças e idosos nas ruas. Eu, modestamente, acrescentaria nessa equação a existência de mulheres sozinhas. Nas minhas andanças, sempre a pé, pude atestar o referido sinal. E por que isso acontece, considerando claro, a parte da cidade que eu conheci?

Roberta Saldanha-Montevideu

O primeiro aspecto que deve ser destacado é que em Montevidéu a legislação não permite condomínios fechados, os chamados “barrios privados” ou “urbanizaciones cerradas”. Não há, portanto, como menciona SÁNCHEZ (2024), privatização do uso de ruas, parques e praças dentro do perímetro da urbanização. O departamento de Montevidéu (ao todo são dezoito no país) continua resistindo, não se sabe até quando, ao avanço do que pode ser chamado de urbanismo neoliberal, que dentre outras características, naturaliza a auto segregação, com a justificativa da segurança e exclusividade, contribuindo para exclusão e dando as costas à vida urbana e sua diversidade. Nas minhas caminhadas pude perceber a diversificação de usos e a inexistência de recuos laterais e frontais em pelo menos três bairros, não só no centro histórico, aproximando o privado do que é público, tornando a cidade mais compacta. A quantidade significativa de parques, praças e uma arborização expressiva são, para mim, surpreendentes. Outro ponto que deve ser destacado é a presença da “Rambla”, um passeio marítimo com uma extensão de 22 km que acompanha o Rio da Prata, que de tão largo vira mar. Chamou, ainda, minha atenção a existência de cinemas de rua em dois bairros que conheci na cidade, fato raro nos tempos das grandes redes de cinema em shoppings. Um deles, chamado “cultural alfabeta”, inaugurado em 2022, no bairro de Pocitos, faz parte de um espaço que integra salas de cinema, café e livraria.
Só resta torcer para que a ideia da cidade como máquina de crescimento não ganhe corpo por lá, apesar de já ser possível identificar alguns indícios nesse sentido. Resistir à força da coalização entre mercado imobiliário, capital financeiro e interesses políticos e econômicos de uma minoria, é quase impossível.

Roberta Saldanha-Montevideu

Montevidéu é um lugar com uma rica vida citadina foi essa a conclusão que cheguei a partir da minha experiência, ainda que esta tenha sido fragmentada pelos fatores tempo e espaço. E olha que eu não falei por aqui do seu rico patrimônio histórico arquitetônico. Vai ficar para uma próxima vez.

REFERÊNCIA UTILIZADA
SANCHÉZ, Marcelo Pérez. Urbanismo neoliberal: barrios privados em Uruguay. Montevideo: ediciones del berretín, 2024.

FOTOGRAFIAS DE ACERVO PESSOAL

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