1. INTRODUÇÃO
A cidade é uma construção social que vendo produzida por agentes diversos ao longo do tempo. A produção do espaço, como adverte Corrêa (2023, p. 43), decorre “(…) da ação de agentes sociais concretos, históricos, dotados de interesses, estratégias e práticas espaciais próprias”. Capel (2013) diferencia agentes de atores, explicitando que os primeiros, os agentes, têm o poder de intervir na construção da cidade, ao passo que atores são todas as pessoas e grupos sociais que ali vivem e se movem. Segundo o geografo espanhol pode haver conflitos de interesses entre os dois grupos e também no âmbito interno, mas há possibilidade de acordos e transações.
Nossa sociedade atual, originada de um sistema patriarcal, capitalista, racista e colonial, é profundamente assimétrica. São muitas as desigualdades socioespaciais existentes, mas no presente texto nossa atenção se volta para um desses atores (1), as mulheres e sua relação com a cidade. O gênero é um dos fatores causadores da assimetria. O significado do termo gênero é uma acepção cultural que imputa uma conduta socialmente adequada e aceita aos homens e mulheres em uma determinada época. Os papeis culturais, ou seja, as características atribuídas a ambos não convergem necessariamente com a real capacidade das pessoas, sendo uma mera construção social.
Como as cidades são uma construção histórico-espacial, estas reproduzem as relações de poder, as desigualdades econômicas e sociais de cada tempo vivido e as mulheres ocupam uma posição de invisibilidade e inferioridade real, apesar da superioridade numérica (2). Essa assimetria pode ser visualizada nas cidades, na forma como e para quem foram pensadas e edificadas. “Nossas cidades são patriarcados escritos na pedra, no tijolo, no vidro e no concreto”, assim resume a geografa Jane Dark (3) (apud Leslie Kerne, 2021, p. 29).
Zaida Muxi (2024) destaca que a estruturação social de papeis diferenciados sustentados na dualidade do sexo biológico do nascimento nada tem de inocente ou inofensiva, argumentando que uma revisão histórica verossímil atesta que a intenção subjacente de tal discurso tem como objetivo colocar as mulheres numa posição de subordinação, conferindo-lhes habilidades e capacidades distintas dos homens. Nessa divisão de papeis, feita pelos detentores do poder e, também da linguagem, da história e dos desejos, prossegue a arquiteta, foram associados ao feminino, ou seja, às mulheres, o âmbito privado, a casa e as chamadas tarefas de cuidado, e, ao masculino, aos homens, o âmbito público, a cidade e o trabalho remunerado.
Como consequência desse pensamento dual e da dominação masculina, o campo da arquitetura e do urbanismo, assim como outras áreas da vida humana, foi afetado. A cidade não é vivenciada igualmente por homens e mulheres. A estrutura e o desenho urbano são claramente projetados para atender o usuário masculino. Zaida Muxi (2024, p.18) nos chama a atenção que o urbanismo (4) usualmente praticado é pensado para atender as necessidades “(…) de um homem saudável, com todas as suas capacidades em seu máximo esplendor, com trabalho fixo e bem remunerado e com uma vida privada resolvida por outra pessoa (5)”.
Postas tais considerações iniciais, pretendemos conectar a questão do gênero e cidade com um conceito-chave da geografia, o de território, demonstrando a importância de um olhar interdisciplinar para uma melhor compreensão do ambiente urbano. Para dirimir tal questão, vamos buscar respostas nas ideias de Stella Bresciani (2018) e de Stümer e Costa (2017).
Stella Bresciani (2018), partindo da premissa da complexidade da problematização da cidade faz uma comparação entre as muitas portas físicas de cidades medievais muradas e as portas conceituais de estudo da temática urbana, que podem ser traduzidas como pesquisas e construções intelectuais de como abordar a questão urbana. Segundo a autora, tal qual Tebas, todas as cidades teriam sete portas de entrada que poderiam ser objeto de estudo. As seis6 primeiras entradas conceituais surgiram simultaneamente nas primeiras décadas do século XIX e estariam relacionadas a problemas concretos decorrentes da industrialização e sua abordagem implicava em organizar em premissas lógicas o que, num primeiro olhar era tido como caótico. A sétima porta, considerada mais recentemente, deixa de lado as questões estritamente objetivas, para analisar, a questão dos territórios e da subjetividade. Já Stürmer e Costa (2017) tentam elucidar o conceito de território, sob a alegação de que este é imprescindível para o entendimento do mundo contemporâneo com o intuito de possibilitar diálogos interdisciplinares. É sobre tal assunto que nos deteremos a seguir.
2. A CIDADE ENQUANTO TERRITÓRIO E LUGAR DE SUBJETIVIDADE
A abordagem da cidade enquanto território e lugar de subjetividade rompe com o quadro teórico de problematização das aberturas de estudo do urbano do começo do século XIX mencionadas anteriormente, já que a ideia de território é menos espacial e mais subjetiva. Ainda que territórios possam ter um aspecto espacial geográfico, a dimensão subjetiva é determinante. As noções rigorosas de identidade, objetividade e subjetividade racionalmente criadas são deixadas em segundo plano para se buscar “(…) aquilo que se diz da vida da cidade, dos significados que se lhes atribui, dos mitos de origem. Privilegiam- se as trocas simbólicas” (Bresciani, 2018, p.80). A razão linear, a previsibilidade e o distanciamento racional entre o sujeito e a cidade são suplantados pela noção de sublime, que “traz à tona as emoções produzidas pelo dia a dia, pela sensação do medo, de impotência frente a tudo que nossa razão não pode domar” (Bresciani, 2018, p.84).
O conceito de território é de fundamental importância para o entendimento da cidade e, para um alcance adequado, precisamos nos valer da contribuição da geografia para escapar da visão limitada de que território é tão-somente o alicerce físico onde vive uma determinada população. Pensar assim seria igualar espaço a território, dois conceitos que se distinguem.
Stümer e Costa (2017, p.50) em seu texto “Território: aproximações a um conceito-chave da geografia” elencam os pressupostos básicos do território:
O primeiro pressuposto é: território é diferente de espaço. Não só diferente, como lhe é posterior; origina-se do espaço. Mesmo a mera imagem do território que esteja contida em uma representação (cartográfica) indica que o espaço preexiste ao território. O segundo pressuposto é: a simples imagem do território equivale a uma apropriação simbólica do espaço como forma primária do território. Ela também abre a possibilidade de se pensar a territorialidade, que surge quando pessoas e grupos realizam uma (7) ocupação do espaço , ainda que momentânea, esporádica e mais ou menos perceptível em seu movimento, conforme a escala em que for visualizada.
A existência do território implica na presença de três elementos: o espaço, a base física, o ator, ou seja, as pessoas individual ou coletivamente e o poder, que está relacionado à forma pelo qual os atores se conectam com o espaço, através do controle, do domínio e da apropriação.
Podemos afirmar, na esteira das palavras de Raquel Rolnik (1992), que o conceito de território abrange a ideia de subjetividade. Só há território quando temos a ocupação do mesmo por um ou mais sujeitos, mas a existência do espaço prescinde da presença de atores. Territórios seriam, em síntese, relações sociais projetados no espaço.
A relação dos atores com o espaço através do poder gera inevitavelmente conflito. Território e conflito, portanto, andam juntos, já que este é inerente ao primeiro. Stümer e Costa (2017, p. 53) sustentam que “(…) a certa altura da história, passa a não haver território sem divergências, antagonismos, embates, ofensivas, resistências e reações” e, mais adiante, reforçam a permanência do conflito “(…) devido às assimetrias de poder na disputa pelos territórios”.
Santos (2008, apud Stümer e Costa, 2017) argumenta a ausência de neutralidade de dados e atores no território, alegando que este produz uma esquizofrenia, pois ao mesmo tempo em que privilegia uma ordem dominante, os detentores do poder e da racionalidade hegemônica, também produz uma contraordem tornando possível outras formas de vida. Globalização e fragmentação fazem parte dessa dicotomia.
A conotação social do conceito de território é inquestionável, este é atravessado pelas relações de poder que o fundam dependendo:
(…) da ação de sujeitos, mas sujeitos de carne e osso, vida e sentimento, com rotinas, cotidianos e um determinado lugar social. Entre esses sujeitos há representantes das camadas pobres da sociedade, portadores de uma identidade defendida com unhas e dentes e que lhes dá motivos para resistir ao esfacelamento do território (fragmentação) e à desagregação comunitária (isolamento).
A relação das mulheres com o território cidade é conflituosa. Todo o ideário patriarcal que atribuiu a casa como sendo o lugar próprio da mulher e a afastando, limitando o seu transitar e sua vivência da cidade está no âmago desse conflito.
3. A RELAÇÃO MULHERES-CIDADE.
A cidade não é a mesma para todos. Como já dito, a construção da cidade se deu para atender os interesses e necessidades de uma parcela ou parcelas da população e as mulheres foram esquecidas. Não há neutralidade na produção da cidade. Ma Ángeles Muñio (2018) relaciona a história dos espaços à história dos “poderes”, argumentando que a arquitetura nos mostra o plano simbólico das relações entre sujeitos.
Zaida Muxí (2018, 2019) destaca que todas as medidas, parâmetros arquitetônicos associados à beleza tomaram como base o ideal de proporção do homem varão ariano e essa visão permeou a criação do Modulor (8) por Le Corbusier e o sistema de medidas de Ernest Neufert (9) no século XX. As dimensões e proporções do homem são, portanto, a base da configuração dos espaços.
A geógrafa feminista Leslie Kern (2021) menciona que até as diretrizes da cidade de Toronto, Canadá, consideradas para efeitos do vento levaram em conta a pessoa padrão e pelas características de altura, peso e área, tal equivale a de um homem adulto.
Para Jan Gehl (2015, p.9): “Primeiro nós moldamos as cidade – então elas nos moldam”. Tal assertiva corrobora a ideia de que a forma como a cidade é construída influencia o comportamento e vivência urbana das pessoas, deixando evidente que a configuração espacial tem um papel ativo que dialoga de forma concomitante com o conceito de território.
Joice Berth (2023, p. 157) afirma que “as mulheres habitantes das cidades partilham da experiência de ser um corpo estranho, indesejado, invadido e apto a ser cerceado ou limitado”.
E quais são as principais adversidades suportadas pelas mulheres nas cidades? Um ponto de fundamental importância a ser considerado é que os problemas sofridos pelas mulheres no seu dia a dia aumentam progressivamente quando outros elementos, além da condição feminina, são acrescidos, a exemplo de raça, classe social, nacionalidade, etc. O entendimento da questão passa, também, por uma abordagem interseccional.
Como as cidades foram projetadas para atender prioritariamente as necessidades dos homens, o direito à cidade, à vida urbana preconizada por Lefebvre (2001), é precário, limitado. A questão dos deslocamentos das mulheres na cidade é uma questão que afeta a todas, dado ao grau de insegurança infinitamente superior aos dos homens e tal se agrava exponencialmente se adicionado outros elementos como classe social e raça. Existe uma violência praticada em razão da condição feminina. O que deve ser pontuado é que, segundo estudos feitos pela Prefeitura de São Paulo, como menciona Joice Berth (2023), são as mulheres as maiores usuárias de transporte público e dentre os pedestres, as mulheres periféricas estão em maior número. A sensação de insegurança faz parte do cotidiano da vida das mulheres na cidade nos seus deslocamentos na cidade.
A agência Patrícia Galvão (10), em parceria com o Instituto Locomotiva, realizou no ano de 2024 uma pesquisa sobre as vivências e demandas das mulheres por segurança no deslocamento e o resultado revelou que 71% das entrevistas em várias capitais brasileiras afirmaram ter sofrido violência ao se deslocar na cidade e 80% declararam ter muito medo de ser vítima de diversos tipos de violência, como assalto, sequestro, estupro, assédio/importunação sexual ao sair de casa e circular na cidade.
Faranak Miraftab (2016, p 366) nos apresenta um exemplo da fragilidade feminina ao citar um caso ocorrido na Índia. Segundo a autora, a violência de gênero está conectada a diversos fatores, mas também a questões básicas como falta de água e saneamento:
Veja-se o caso das duas irmãs adolescentes do estado de Bihar, na Índia, as quais em uma tarde de maio de 2012, saíram de seu barraco para defecar do lado de fora, longe de todos, onde não seriam vistas e teriam privacidade. Mas, elas nunca voltaram. Seus corpos mortos e violentados foram encontrados mais tarde, dependurados em uma mangueira. Se as mulheres tivessem acesso seguro a sanitários, apenas em Bihar, cerca de 400 estupros teriam sido evitados naquele mesmo ano, relata o chefe da polícia de Bihar. Mas como a profissão de planejamento serviu ao bem público em um caso tão grave de injustiça espacial? Meninas e mulheres não são suficientes como um “público”? E sua segurança e suas vidas não são suficientes para um “bem”?
Pela potencial vulnerabilidade das mulheres no espaço urbano, seus trajetos e percursos na cidade não são definidos em termos de distância e tempo e sim pelo fator medo.
Outro aspecto a ser destacado é a existência de poucos equipamentos públicos voltados de forma específica para mulheres e, se reforça ainda mais se adicionados outros elementos como a maternidade, a classe social, idade. Segundo Leslie Kern (2021), o planejador urbano, em regra, quando projeta espaços públicos o faz pensando em interesses e práticas associadas ao sexo masculino. Isso se estende também para a questão do transporte público, apesar do número de mulheres usuárias superar o dos homens, que foi pensado a partir do parâmetro de deslocamento masculino em uma direção específica, linear, de ponto a ponto.
A locomoção feminina é complexa e poligonal, já que influenciada diretamente pelas chamadas tarefas de cuidado que abrange mães cuidando de filhos e também de seus pais, e o trabalho em casa. Percursos para escolas, hospitais e postos de saúde, creches, supermercados, geralmente ficam a cargo das mulheres. E, se adicionarmos tais tarefas ao trabalho remunerado, a relações de tempo e espaço se tornam ainda mais complicadas. A escritora canadense prossegue argumentando que em pesquisa recente foi constatado que mulheres pagam mais por serviços semelhantes aos dos homens, incluindo transporte público, onde são mais mal atendidas que estes, configurando uma espécie de imposto ‘cor de rosa’. “A pesquisa de Sarah Kaufaman mostrou que na cidade de Nova York, por exemplo, mulheres que cuidam de crianças podem pagar ate 76 dólares a mais por mês de transporte”. (2021, p.56). É evidente que todo esse quadro se agrava ainda no caso de mulheres com uma condição social e econômica inferior.
A ideia-base do urbanismo de atender a todas as pessoas na cidade nunca foi implementada. Tudo continua como Jane Jacobs denunciou desde 1961 em “Morte e vida das grandes cidades”:
A pseudociência do planejamento urbano e sua companheira, a arte do desenho urbano, ainda não se afastaram do conforto ilusório das vontades, das superstições conhecidas, do simplismo e dos símbolos e ainda não se lançaram na aventura de investigar o mundo real (2011, p.12)
A parcela majoritária da população é simplesmente esquecida por muitos dos planejadores urbanos que projetam a cidade sob a ótica do capital, numa lógica masculina. Não há presença das mulheres nas decisões urbanas nem como usuárias do espaço público. Montaner e Zaida Muxí (2021, p. 91) elucidam o retrato contemporâneo do urbanismo:
(…) nas últimas décadas, por causa da pressão dos processos especulativos, especialmente no fim do século XX e início do XXI, o planejamento urbano perdeu o valor de defesa do público e tendeu a legitimar os direitos da propriedade privada e dos investidores. Colocou-se a serviço das estratégias neoliberais, dos capitais globais e da financeirização das cidades, acima das necessidades da coletividade. O urbanismo não é neutro nem alheio às pressões dos poderes e dos momentos históricos.
O cenário apresentado acima nos mostra que a cidade é um território hostil para as mulheres. Há uma evidente restrição de ocupação feminina ante a constatação de significativas desigualdades socioespaciais. O território para as mulheres é fragmentado, induz ao isolamento e compromete a sensação de pertencimento, o que corrobora a manutenção da lógica hegemônica de que a cidade é, por natureza, lugar de homens.
As considerações acima evidenciam a necessidade e urgência de ampliação do debate. O chamado urbanismo com perspectiva e visão de gênero parte da ideia de inclusão e da redefinição de seus objetivos para abraçar a necessidade da totalidade de seus usuários e a diversidade de situações. Isso implica em trazer para o âmbito do urbanismo as vivências das mulheres, suas necessidades e principais questões. O trabalho reprodutivo, que inclui também as atividades domésticas e de cuidado de outras pessoas, prioritariamente desenvolvido por mulheres, principalmente aquelas com menor poder aquisitivo, devem ser levados em consideração da mesma forma que o trabalho produtivo no momento de se planejar a cidade. Como bem adverte Gerda Lerner (2019, p. 29): “As mulheres são maioria, mas são estruturadas em instituições sociais como se fossem minoria”.
Como seria projetar uma cidade com a inclusão da perspectiva de gênero? Quais seriam as ideias básicas para tanto? O urbanismo de gênero, conforme assevera Lucía Pérez- Moreno (2018) ao sintetizar o pensamento de Zaida Muxí, se contrapõe aos fundamentos do urbanismo moderno, quais sejam o zoneamento (setorização conforme usos), a hegemonia do automóvel e a ausência de diversidade de escalas urbanas. Superar a divisão de cidade por partes e incorporar a vida cotidiana das mulheres e sua complexidade na discussão é o ponto central do urbanismo com esse viés. Outros aspectos importantes são trabalhar com a ideia de proximidade para atender a real necessidade das pessoas, e possibilitar a participação ativa das mulheres no planejamento urbano enquanto profissionais de arquitetura e urbanismo e também como usuárias da cidade.
Trabalhar na escala de bairro, estabelecer micro-estratégias, utilizar instrumentos efetivos para a busca do conhecimento das realidades de cada grupo específico de mulheres, são outros elementos a serviço do urbanismo de gênero ou urbanismo feminista.
O ponto de partida para essa nova forma de enxergar o urbano é reconhecer a existência das desigualdades entre os homens e mulheres nas cidades e, consequentemente dar visibilidade a estas, além de valorizar o chamado trabalho reprodutivo e as tarefas de cuidado. Isso implicaria em afastar a concepção de neutralidade dos espaços já que estes foram concebidos para satisfazer as expectativas e necessidades dos homens, partindo de uma lógica de masculinidade hegemônica.
O mapeamento dos problemas, das necessidades das mulheres no seu dia a dia e sua relação com o entorno e com a cidade é de fundamental importância para um resultado satisfatório de uma política urbana com perspectiva de gênero. Ter conhecimento o mais próximo possível da realidade é fundamental para tanto.
Existem exemplos de políticas urbanas inclusivas que consideram a perspectiva de
gênero, como o Plano para Justiça de Gênero da cidade de Barcelona (11).
programa é o que trata de “bairros próximos e sustentáveis”. A ideia base é valorizar a vida cotidiana de todos os usuários, que levou a implantação do modelo da “supermanzana”. Manzani (2024) nos explica que a “supermanzana”, também conhecida como superilha é tipo um macro-quarteirão formado pela fusão de nove quadras a partir da malha criada no século XIX por Ildefonso Cerdà. Na nova configuração há uma restrição do trânsito, a presença de espaços públicos compartilhados e de uso misto, com eliminação da monofuncionalidade.
Outro exemplo a ser destacado é a atuação do Coletivo Punt 6. O Col-lectiu Punt 6 (2023), uma cooperativa que atua em Barcelona, formada por arquitetas, urbanistas e sociólogas cujo objetivo é buscar cidades mais inclusivas, defendendo uma visão e uma atuação prática distintas do urbanismo hegemônico, androcêntrico, patriarcal e mercantil. O Coletivo defende a transição do urbanismo normativo para o urbanismo feminista e uma nova forma de pensar a cidade. A incorporação no planejamento urbano, para além de elementos construtivos, de questões como gestão, uso e aspectos temporais; a vida cotidiana como ponto de partida (o que impediria a padronização de modelos com a desconsideração da realidade local); a flexibilidade e adaptabilidade como critério já que a vida humana é dinâmica e as necessidades mudam a todo tempo; a sustentabilidade da vida com priorização do trabalho reprodutivo, o que inclui as tarefas de cuidado, e das questões ambientais e; por fim, a dependência e a vida comunitária, são as premissas base dessa nova forma de olhar.
Um modelo que também se enquadra nessa linha de atuação, mais próximo da nossa realidade e contexto, é o projeto da “Manzanas del cuidado” (12), em Bogotá, na Colômbia, uma iniciativa da prefeita da cidade à época, Cláudia Lopez. O projeto que já conta com 27 unidades na cidade oferece um serie de serviços a mulheres cuidadoras, a exemplo de cursos, programas educacionais, atividades recreativas e esportivas. No local há espaços para permanência de crianças, pessoas com deficiência e idosos. O sistema adotado permite que as mulheres que exercem tarefas de cuidado cotidianamente disponham do seu tempo para outras atividades.
Ainda que incipientes no contexto geral, esses exemplos dentre outras iniciativas demonstram a viabilidade de uma mudança de paradigma na forma de enxergar o urbanismo. O objetivo da discussão posta é chamar atenção para essa possibilidade. Nessa mudança de paradigma, ocorreria o que Grada Kilomba (2019) chamaria de “tornar-se sujeito”, utilizando os conceitos de “sujeito” e “objeto” de Bell Hooks (2019) (13). Fazendo uma correlação com Capel (2013), as mulheres deixariam de ser meros atores e passariam à condição de agentes da cidade.
(13) Bell Hooks explicita que “sujeitos” são aqueles que têm condições de definir suas próprias realidades, ao passo que os “objetos” têm sua realidade definida por terceiros.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo se propôs a discutir a relação entre gênero e território e qual sua conexão com o urbanismo. Delimitados os contornos da questão, passamos a enfrentar o conceito de território, utilizando a contribuição da geografia.
O conceito de território vai além da dimensão física para abarcar o aspecto da subjetividade, o que pressupõe a existência de pessoas, atores que se conectam com o espaço de diversas formas. Chegamos a uma definição sucinta de que territórios são relações sociais projetadas no espaço.
Outra conclusão obtida foi a de que a forma como espaço foi (e ainda é) produzido, ou seja, como a cidade é construída, privilegia a vivência e as atividades dos homens, relegando às mulheres uma experiência urbana limitada. Essa forma de pensar a cidade impulsionou a segregação, produzindo um sistema binário e opressivo. A justificativa para tanto tem correlação com os papéis e condutas culturas atribuídos a homens e mulheres historicamente.
A relação conflituosa e hostil entre o território cidade e as mulheres advém, portanto, do ideário patriarcal e é legitimada pelo urbanismo hegemônico, o que evidencia a conexão estreita entre gênero e território e o planejamento urbano.
A discussão posta pretendeu chamar a atenção para esse aspecto, apresentando uma alternativa ao urbanismo excludente que se vem praticando. Uma nova forma de pensar o urbano, a partir da realidade e vivência das pessoas. Trabalhar o micro ao invés do macro, a proximidade no lugar do distanciamento. A vida cotidiana passa a ser base desse novo modelo, rompendo com a ideia da divisão espacial entre público e privado. Além disso, premissa base da ideia é também enxergar o ecossistema de forma integral, com a inclusão das pessoas e da natureza.
As experiências mencionadas anteriormente no presente trabalho, ainda que pontuais, demonstram a viabilidade de um novo planejamento urbano, cujo intuito é buscar lugares mais abrangentes, onde todos os seus habitantes, homens e mulheres, possam usufruir do seu direito à cidade. Uma cidade com espaços públicos visíveis, sinalizados, iluminados e ocupados por pessoas diversas, ou seja, que tenha vitalidade e que transmita uma sensação de segurança é o objetivo do modelo que defendemos. Um modelo urbano que priorize pedestres e uma rede de transporte público acessível e segura onde os diferentes tempos urbanos sejam considerados, o que alcança as chamadas tarefas chamadas reprodutivas. Um lugar onde todas as pessoas e seu modo de vida estejam no centro da discussão, essa é a cidade inclusiva. Esse é o território que queremos.
(1) As mulheres, utilizando a classificação de Capel (2013), em regra, são atores e não agentes urbanos, pois não detém o poder de intervir na produção da cidade.
(2) Segundo dados do Censo demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, a população brasileira é composta por 51,5% de mulheres e 48,5% de homens e a diferença se traduz em 06 milhões de mulheres a mais do que homens. Disponível em https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de- homens-e-mulheres.html
(3) A opção de utilizar na citação o primeiro nome das autoras tem o objetivo de dar visibilidade à escrita feminina, contrariando de forma intencional as normas da ABNT no particular. Em relação aos autores homens, as regras serão observadas integralmente.
(4) Aquilo que hoje se denomina como urbanismo foi se formando, com características disciplinares específicas e seus instrumentos, entre a segunda metade do século XIX e início do século XX em decorrência de progressivos processos de industrialização de alguns países europeus ocasionando modificações na estrutura dos assentamentos territoriais, como destaca Donatella Calabi (2015). Seu campo de aplicação é a cidade, o controle de sua ampliação e sua organização. Pode ser definido, portanto, como a arte de planejar o desenvolvimento físico das cidades, resolvendo conflitos sociais. Condições de vida saudáveis e seguras, sistema de transporte adequado, bem estar e qualidade de vida das pessoas estão dentre seus objetivos.
(5) Usualmente a resolução da vida privada dos homens fica a cargo de uma ou mais mulheres.
(6) As seis portas mencionadas por Stella Bresciani (2018) são: 1) a cidade moderna, a questão técnica; 2) a era mecânica e a questão social; 3) a formação das identidades sociais; 4) a formação da sensibilidade burguesa; 5) o lugar e o sujeito da história; 6) o espaço da cultura popular.
(7) Os autores citam, dentre outros exemplos, para facilitar a compreensão, o conflito entre torcidas organizadas por questões territoriais, peregrinações religiosas, paradas, protestos, etc.
(8) O Modulor consistia na medida ideal do corpo humano criado por Le Corbusier para servir de parâmetro na relação corpo humano e a arquitetura. Tal medida equivalia a de um homem caucasiano de 1,83 de altura.
(9) Ernest Neufert é o autor do mais famoso manual técnico sobre projetos de arquitetura. No Brasil, o livro conhecido como Neufert, conta com mais de 600 páginas e está na 42a edição.
(10) AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO. Disponível em:< https://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/71- das-mulheres-ja-sofreram-violencia-no-deslocamento-e-9-em-cada-10-acham-que-a-seguranca-das- mulheres-deve-ser-prioridade-nas-eleicoes-municipais/>
(11) À época a Prefeita de Barcelona era uma mulher, de nome Ada Colau
(12) Manzanas del cuidado: https://sistemadecuidado.gov.co/
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