Uma amiga arquiteta me fez essa pergunta ao acompanhar minhas postagens sobre a cidade no Instagram. Sem pestanejar respondi que estava sendo muito mais do que eu esperava (na ocasião ainda estava por lá). Talvez isso tenha ocorrido porque vivenciar um lugar é muito melhor do que qualquer imagem ou algo que tenha lido ou escutado nas aulas de Arquitetura e Urbanismo. A primeira coisa que chama atenção em Copenhague, capital da Dinamarca, além do protagonismo das bicicletas que são o meio de transporte mais utilizado pela população, é a quantidade de espaços públicos, parques urbanos e ainda como a cidade te convida a permanecer nela.



A relação da cidade com a água também impressiona. Esportes aquáticos praticados por pessoas de diferentes faixas etárias, casas flutuantes, piscinas públicas, uma quantidade significativa de barcos servindo para usos diversos, inclusive como transporte público. E como tem gente na rua, e olha que não estou falando só de turistas. Crianças por toda a parte (nunca vi tantas), idosos, mulheres sozinhas e famílias inteiras usufruindo a cidade. A tal da cidade pra pessoas de Jan Gehl existe mesmo. E a primeira indagação que vem a cabeça é como Copenhague chegou a esse patamar. A conexão entre poder público e a universidade de arquitetura, pesquisas e estudos continuados por décadas sobre a relação cidade e usuários e a implantação paulatina de uma concepção de cidade que privilegia a vivência dos seus habitantes e a escala humana, são as respostas. Tempo, vontade política e condições que permitiram a execução continuada de um projeto de lugar e não só de um espaço físico. Imediatamente me vem à cabeça a afirmação do geógrafo Yi-Fu Tuan, citado por Lauren Elkin (2022) de que o espaço se transforma em lugar quando damos sentido a ele com o movimento e o vemos como algo a ser percebido, apreendido, vivenciado.



Passei pouco mais de uma semana na cidade, caminhei muitos quilômetros durante o dia, mas também à noite, usei por inúmeras vezes o eficiente transporte público e, apesar de ser uma mulher sozinha, não tive a tão conhecida sensação de insegurança que nos acompanha desde sempre. Outro aspecto relevante é que a gritante desigualdade social, facilmente identificável, inclusive em países tidos como de “primeiro mundo”, não é aparente. Estive no distrito de Nørrebro, com alta densidade populacional e grande número de imigrantes e estudantes, para ver uma praça, a Superkilen, projetada pelo BIG Architects, e uma residência estudantil, o surpreendente Nordbro Complex, de autoria do escritório dinamarquês Arkitema. O bairro é considerado um dos de maior vulnerabilidade social da cidade e pra nossa realidade latino-americana, de premissas tão diferentes, até parece brincadeira tal afirmação.



Estar em Copenhague me deu a sensação de estar em um mundo paralelo, onde planejamento urbano, arquitetura, inovação, design urbano estão a serviço das pessoas. Na arquitetura, o antigo e o novo convivem harmonicamente e a preocupação com preservação do patrimônio histórico é uma constante. Tudo isso está entrelaçado com um contexto econômico e social totalmente diverso do nosso país e da América Latina, um modelo que combina economia de mercado e proteção social, com um estado forte provendo educação e saúde de qualidade. A questão do acesso à moradia também é levada a sério por lá e existe um percentual de no mínimo 20% do estoque imobiliário de habitação social que atinge, inclusive sofisticados distritos e áreas tidas como “nobres”. Além disso, há uma rigorosa regulamentação legal para a aquisição de imóveis por não residentes que restringe a possibilidade de especulação imobiliária e a ideia de imóvel como mercadoria, tão presente nos dias de hoje, perde força.



Outro aspecto de vital importância diz respeito ao enfrentamento da crise climática. A cidade de Copenhague é uma das cidades-membro da Aliança de Cidades Neutras em Carbono (Carbon Neutral Cities – CNCA), tendo como meta principal ser a primeira cidade “Carbono Zero” do mundo. Sua política e ações urbanas caminham nesse sentido.
É tanta coisa pra falar e refletir, mas isso vai ser feito gradualmente. Claro que vivenciei um fragmento da cidade e desconheço os aspectos negativos, os desafios e problemas existentes, mas essa pequena amostra já demonstrou que Copenhague é uma cidade que deve servir de inspiração para tantas outras. Mesmo em diferentes contextos, considerando a complexidade e realidade de cada lugar, é possível pensar e planejar a cidade para as pessoas.
Referências:
GEHL, Jan. Cidade para pessoas. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2015
GEHL, Jan, SVARRE, Birgitte. Vida na cidade: como estudar. São Paulo: Perspectiva, 2018.
ELKIN, Lauren. Flâneuse: mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres. São Paulo: Fósforo, 2022.
Além dos livros referidos, foram utilizadas como fonte informal para a elaboração do texto, conversas tidas com dois imigrantes que vivem e trabalham em Copenhague há mais de oito anos. Com relação às fotografias, todas são de autoria própria.
