Existe uma “cidade livre” inserida no bairro de Christianshavn em Copenhague, chamada CHRISTIANIA. A área militar abandonada, de aproximadamente 34 hectares, foi ocupada por um grupo de hippies em 1971 que passou a viver no local ao largo de convenções e regras sociais consolidadas e, com isso, atraiu pessoas que comungavam dos mesmos ideais de liberdade e independência até se sedimentar como uma comunidade diferenciada. Além das edificações preexistentes que foram incorporadas, a autoconstrução foi amplamente utilizada, caracterizando o que se chamou de uma “arquitetura sem arquitetos”. Formas variadas, orgânicas e experimentais, alternativas ecológicas, reaproveitamento de materiais, valorização do natural eram elementos dessa forma de produção do espaço. E, claro, não se pode deixar de destacar a arte urbana, o uso do grafite.



Com o passar do tempo, a amplitude da liberdade de construir foi sendo questionada e o poder público passou a exigir o cumprimento de regras urbanísticas. Na verdade a tão comentada independência de Christinia não é absoluta. A área faz parte de um bairro na cidade de Copenhague e não está livre do cumprimento de normas. Existe um regramento interno na comunidade que permite à autogestão, este é respeitado e, às vezes tolerado, pelo estado dinamarquês, desde que não haja confronto com a legislação nacional. O que é interessante na norma interna é que tudo é comunitário, e depende de decisões tomadas em assembleias. É imprescindível a deliberação coletiva, por exemplo, para ser aceito como morador do lugar. O que se sabe para o futuro é que há uma previsão de construção de moradias populares no território pelo poder público e isso foi precedido de uma negociação com residentes, que envolveu também a retirada de traficantes de drogas e o fechamento da pusher street, a rua onde era realizado o comércio ilegal.



Eu passei um tempinho por lá, menos do que gostaria (nunca consigo cumprir o meu roteiro) e as informações que obtive me foram repassadas por um guia de turismo, um argentino que vive há anos em Copenhague e também por meio de pesquisa feita na internet. A seleção dos novos moradores das unidades da habitação social que serão construídas para fazer frente à crescente demanda por moradia, vai observar critérios objetivos, como renda, vulnerabilidade e a inserção do nome em lista de espera do munícipio. A deliberação e escolha por assembleia que embasou a vida comunitária vai cair por terra. Como a dualidade está presente em tudo, ainda que pessoas sejam favorecidas com o acesso à moradia, será o início do fim dos ideais da comunidade hippie.
Referências
A visita ao lugar foi a principal referência. Somado a isso, uma conversa informal com um guia de turismo e pesquisas na internet (links a seguir) forneceram subsídios para o texto. As fotos são de autoria própria.
https://cphpost.dk/2022-08-29/news/an-offer-they-couldnt-refuse-christiania-accepts-government-deal-to-build-affordable-housing-within-its-perimeter/
https://www.feantsa.org/epoch-files/Homelessness-Strategies/Denmark/Homelessness-Strategy-Denmark-Original2024.pdf
