Filmes onde a arquitetura deixa de ser um mero cenário e passa a integrar a história quase como uma personagem coadjuvante. Isso difere de parte significativa dos filmes que vemos hoje em dia onde o lugar da filmagem é irrelevante para a narrativa. O que nos interessa por aqui são filmes onde a arquitetura faz parte da história contada ou documentários que tratam da temática e seus criadores, arquitetas e arquitetos. Minha primeira dica é o longa-metragem que nos tirou o Oscar de melhor filme internacional 2026 das mãos, Valor Sentimental (Sentimental Value, 2025), dirigido pelo cineasta norueguês Joachim Trier e disponível na plataforma MUBI.
Poderia ter sido mais um drama familiar no cinema, mas Valor Sentimental vai mais adiante. Além do uso da metalinguagem do cinema, da sensibilidade e sutileza ao recontar a história de uma família, seus traumas e perdas, e a tentativa de reconexão de um pai ausente, um cineasta famoso, e suas filhas, o filme coloca o lugar onde as relações familiares aconteceram, ou seja, a casa, como fio condutor da história. O espaço deixa de ser meramente físico e passa a ser um lugar onde os vínculos afetivos e a vida cotidiana existe. A casa como metáfora da vida familiar, uma casa sensorial que “vê”, “sente” e que “ouve”, que retém em sua materialidade a história da existência de uma família, suas alegrias, tristezas e tragédias, nas paredes, objetos e marcas do passar do tempo. E, no final, assim como os vínculos afetivos familiares se regeneram, a casa ganha cor, materiais e objetos novos. A importância dos lugares, da arquitetura e sua conexão com a vida humana é escancarada no filme norueguês. Nunca foi e nunca será só uma questão de estética e funcionalidade.


