A nova aba do Arquitetando tem como objeto destacar, valorizar, visibilizar o trabalho de arquitetas mulheres. A ideia surgiu depois de um curso remoto que fiz na escola MASP chamado “Mulheres na Arquitetura do Sul Global no séc. XXI” e não conhecia uma parte significativa das arquitetas mencionadas. Aí você se dá conta de como o trabalho feminino também na arquitetura, mesmo que de importância e qualidade indiscutíveis, não tem a mesma visibilidade e valoração do masculino. Ainda que isso seja óbvio ululante, observei que mesmo quem tem interesse no tema, ainda conhece pouco. Há um universo a ser descoberto, pesquisado e revelado. De imediato, a primeira arquiteta que me veio à cabeça para abrir esse rol de mulheres foi Lina Bo Bardi (1914-1992) e não poderia ser diferente. Uma mulher que decidiu ser brasileira e conseguiu protagonismo num cenário feito e preparado para os homens brilharem. Na arquitetura, almejava a poesia e não a beleza e abraçava em seus projetos as contradições e as contingências do processo de fazer arquitetura. A procura pelo exercício da composição, pelo “belo” clássico nunca esteve no âmago do seu processo criativo. Nas minhas idas e vindas a São Paulo, conheci a casa da arquiteta, fui ao MASP inúmeras vezes, no SESC Pompeia tive o privilégio de ver duas exposições, uma de Marina Abramovic, a última de Sebastião Salgado, e também perambulei por lá na época do final da pandemia da Covid-19 (devidamente vacinada), com o intuito de fazer fotografias do lugar. Cheguei a assistir a um espetáculo no Teatro Oficina e tentei ver a famosa escada helicoidal do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM – BA) quando estive em Salvador, também no período de limbo entre o fim da pandemia e a reabertura dos espaços, mas o prédio ainda estava fechado. Falar do trabalho de Lina é falar de muitas mulheres em uma, falar de pluralidade, de integração com a paisagem, de contexto, de conexão com o lugar e sua cultura e, também, de originalidade. Arquiteta, designer de mobiliário, editora, escritora, ilustradora, cenógrafa, curadora de museus, uma mulher de atuação diversa e de muitos talentos. Ela conseguiu a almejada visibilidade feminina, mas certamente se fosse do sexo masculino, isso seria potencializado. Como disse Marcelo Ferraz, o maior legado de Lina, além de suas marcantes obras, foi trazer a discussão antropológica para o âmbito da arquitetura. Fazer arquitetura pensando nas pessoas, criando espaços para serem utilizados, vivenciados por todos. Isso se deve ao entendimento que ela teve da relação entre a arquitetura com a vida e vivência das pessoas.
Lina merece ser estudada e ter sua obra dissecada. Anteviu e entendeu problemas que estão no centro das discussões da boa arquitetura nos dias de hoje (o que quase sempre não se confunde com as intenções do mercado imobiliário).
A “Casa de Vidro”, um marco da arquitetura moderna brasileira foi o primeiro projeto integralmente construído da arquiteta (1950-1951). A ideia central que permeou o projeto desde sua concepção, além da moradia, foi de criar um espaço para estudos, pesquisas e encontros intelectuais, com ateliês para artistas e estudiosos. A intenção era construir alojamentos para residentes visitantes em terreno próximo, mas essa parte do plano não se concretizou. Ao longo da existência da arquiteta, a casa foi um lugar de encontro de eruditos, artistas de São Paulo ou em trânsito pela cidade, e nomes como Gio Ponti, Charlotte Perriand, Oscar Niemeyer, Aldo van Eyck e muitos outros estiveram presentes em almoços, jantares e reuniões por ocasião de sua passagem pela capital paulista. Lina fazia referência à sua casa como uma “open house” e isso se confirmava pela presença frequente de pessoas no lugar.
A casa foi construída em um loteamento no bairro do Morumbi, quando este ainda não fazia parte do núcleo urbano da cidade, em um lugar afastado, com um terreno de topografia irregular e acentuado declive e, ainda sem uma infraestrutura adequada. A casa, erguida na parte mais alta da área, com seu setor social (sala de estar, jantar e biblioteca), sustentado por esguios pilotis e envolto por uma pele de vidro que substituiu as paredes (um janelão de piso a teto sem parapeitos), é acessada por uma imponente escada metálica e não pode ser vista da rua, pois, além de sua localização, encontra-se cercada por uma densa área verde.



A perfeita relação entre natureza e edificação é a característica básica do projeto. Além da vegetação já existente no lote, arbustos da antiga fazenda de chá, a arquiteta plantou árvores de grande porte, em torno de 240 espécies, sem um desenho paisagístico prévio, além de um jardim de plantas. Lina afirmava que preferia semear ao vento e não era incomum vê-la na área externa da casa, com roupas de jardinagem e acompanhada de um empregado e de um cão.
Achillina Bo afirmava que sua intenção na construção foi a de compatibilizar a ideia de um abrigo para proteção de chuvas e ventos com um espaço onde pudesse participar do “poético e ético” de uma tempestade. Para dialogar com os ciclos naturais, o projeto não poderia fazer uso das vedações e fechamentos usuais de uma casa comum, como, por exemplo, paredes grossas e aberturas pequenas. O método construtivo convencional foi deixado para a parte íntima da casa, onde ficavam a cozinha, quartos, banheiros, dependências de empregado e setores de serviço. Aí sim, a lógica mudava, pois essa parte da construção era ancorada no solo e o material utilizado era alvenaria, cimento e pedra, com aberturas de tamanho normal.



O MASP – Museu de Arte de São Paulo, outro marco da arquitetura moderna brasileira que foi projetado por Lina, é a “cara” da capital paulista e está para São Paulo como a Torre Eiffel para Paris. Tanto é assim que o museu foi escolhido pelos paulistanos como um símbolo de representação da cidade. O terreno que seria a nova sede do Museu de Arte de São Paulo foi adquirido pela prefeitura da cidade de uma família paulista. Existe uma versão de que seu antigo proprietário colocou uma cláusula no negócio, para que a vista do antigo Belvedere do Trianon fosse mantida. Ainda que essa narrativa seja amplamente difundida, o que de fato existiu foi uma carta do dono anterior com um pedido de que o local se tornasse um logradouro público. Nunca houve, portanto, uma exigência legal de vista desimpedida.
Fazer uma arquitetura feia, simples e sem uma preocupação formal, mas criar um lugar que pudesse ser aproveitado pelas pessoas: essas foram palavras de Lina sobre o projeto do MASP. No nível da Avenida Paulista, o que pode ser visto é um grande volume retangular suspenso por quatro robustos pilares, sem uma fachada tradicional. Não se imagina desse ângulo de visão que o museu se duplica no subsolo. O grande vão surgiu do imaginário de Lina que pensava o espaço com pessoas, crianças, brinquedos, exposições ao ar livre, como um grande universo lúdico. Ela, inclusive, fez um desenho-colagem do que seria sua intenção projetual, “uma praça pública em movimento”. A ideia não era impor usos e sim abrir múltiplas possibilidades para as pessoas, incorporando diferentes lógicas. Uma arquitetura aberta, revolucionária, com as pessoas sendo cocriadoras do espaço. E a cidade entendeu a mensagem da arquiteta e o vão livre do MASP de 74 metros de comprimento é, por excelência, o espaço público emblemático de São Paulo, utilizado de modo diverso por uma multiplicidade de pessoas, podendo ser tanto o local da realização da feirinha de antiguidades e da simples permanência de pessoas ao lugar principal de manifestações políticas na cidade. “É a arquitetura da liberdade”, frase dita pelo músico norte-americano John Cage impactado pelo prédio quando de sua visita a São Paulo na década de 80, que Lina gostava de repetir nas explicações sobre o objetivo do projeto.



A edificação superior é uma caixa suspensa sob um pé-direito de 8 metros, apoiado em 4 pilares que são conectados por duas vigas de concreto protendido na cobertura e duas vigas centrais para a sustentação do andar da pinacoteca. A busca pela liberdade segue permeando os espaços do museu, permitindo diversos tipos de exposições. E o que dizer da ousadia da arquiteta ao utilizar os famosos cavaletes de concreto e vidro para expor as pinturas, quebrando a dinâmica da museografia tradicional eurocêntrica adotada nos centros de cultura mundo afora de apresentar obras de arte fixadas nas paredes. Um ato de rebeldia a favor da liberdade de percurso, da visão integral dos quadros, de frente e verso e da quebra da ordem cronológica. Essa forma de pensar se alinha perfeitamente com a ideia de Lina sobre o tempo. Nas palavras da arquiteta (Ferraz, 2025, p. 149): “(…) o tempo linear é uma invenção do Ocidente, o tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim”.



A ideia da diretoria do Sesc era que tudo fosse derrubado para a construção de um novo prédio de um novo centro cultural de lazer, mas a proposta de Lina, após visitar a antiga Fábrica de Tambores da Pompéia nos fins de semana e constatar a vitalidade do lugar, foi de manter a estrutura original e fazer alguns acréscimos. A arquiteta se deparou com cenas populares alegres, pessoas de faixas etárias diversas usufruindo do lugar e também ficou impressionada com a qualidade da arquitetura existente. Os galpões racionalmente distribuídos e a elegante estrutura de concreto armado foram determinantes para a proposta de conservação da construção existente. Não havia motivos para destruição do que ali já existia. Foi um árduo trabalho de convencimento até que finalmente a intenção projetual de Lina foi acolhida e o projeto de demolição abandonado por decisão do Conselho Regional do Sesc. À época, a chaminé, a estrutura de maior escala existente na fábrica, já havia sido derrubada.
Entre o primeiro desenho e a inauguração da segunda etapa, decorreram 9 anos. O desenvolvimento do projeto e sua execução ocorriam concomitantemente. O escritório era dentro da própria obra e a arquiteta acompanhava de forma diária e ininterrupta sua execução, testando e experimentando antes de decidir. A primeira etapa da obra, de reabilitação da antiga fábrica, foi inaugurada em 1986. Segundo Lina, foram colocadas apenas “umas coisinhas: um pouco de água, uma lareira”. Prossegue argumentando que ninguém mexeu na estrutura, pois além da importância arquitetônica, a estrutura era belíssima e original.



A segunda etapa da obra que abrangia os blocos esportivos foi finalizada e entregue em 1986. Aqui sim podemos falar em construção nova, já que foram construídas duas torres de concreto aparente conectadas por passarelas de concreto protendido. Em uma delas, as janelas são substituídas por aberturas que lembram “buracos de caverna”, sem vidros e, na outra torre, são quadradas e distribuídas de forma aleatória. Ao lado destas, foi construída uma torre cilíndrica, também de concreto aparente, com uma espécie de rendilhado na sua face externa para homenagear o arquiteto mexicano Luis Barragán.



Lina conseguiu condensar no projeto do SESC Pompeia, a meu ver, o que há de mais nobre na arquitetura, uma responsabilidade existencial e não só meramente técnica. Um programa abrangente e inclusivo que encontrou na arquitetura sua perfeita correspondência. Um centro de lazer, com teatro, restaurante, bar, espaço para exposições e apresentações, shows, festas etc. Um lugar para a prática de esportes, mas também para permanência e atividades a céu aberto, uma rua sem carros, um local de encontros. E tudo isso de mãos dadas com a história do lugar, a cultura e a sustentabilidade.
A forma de pensar e fazer arquitetura de Lina Bo Bardi nos dá respostas a questões contemporâneas. É uma chave para que possamos refletir sobre que tipo de arquitetura queremos e que vai nos ajudar a viver no século XXI.
Começo a pensar que a arquitetura de Lina é a materialização de sua ideia de que o tempo não é linear. O trabalho realizado por esta no século passado, arquitetura em sentido lato, já era uma visão do futuro. Como seria bom se suas ideias encontrassem eco no presente.
Referências
FERRAZ, Marcelo. Ao lado de Lina. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2025.
FERRAZ, Marcelo (org.) Coleção Lina Bo Bardi. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2019.
PERROTA-BOSH, Francesco. Lina: uma biografia. São Paulo: Todavia, 2021.
LINA Bo Bardi. Direção: Aurélio Michiles. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1993 (50 min.). Disponível: Curta On (Acesso em set. 2026)
Fotografias
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