Por que os lugares impressionam a gente? Pra mim não existe uma resposta certa e pensar somente no apelo estético não é suficiente. Existem aspectos objetivos, mas a subjetividade tem um papel decisivo nessa avaliação. Na minha última viagem para Londres, vi tantos espaços espetaculares, alguns bem exclusivos e lindos que só tive acesso por estar acompanhada de amigos que vivem e trabalham na cidade, mas confesso que o que mais me tocou foi o Barbican, a “cidade” londrina brutalista. Foi uma visita programada e depois de estudar a dinâmica de como transitar no complexo e o que ver, me aventurei.
O percurso não é facilmente decifrável e meio que fui me perdendo e me achando. O mundo da arquitetura, em certa medida, como afirma FOSTER (2017) tem se tornado meio igual com a repetição de estilos globais, o que me fez lembrar uma aula no curso de arquitetura em que o professor apresentou uma série de imagens de cidades de diversos continentes e nos pediu para reconhecer os lugares e não foi uma tarefa fácil, pois todas pareciam iguais. Não havia nenhum elemento que pudesse linkar aquelas imagens aos territórios, faltava identidade. Só isso já seria uma justificativa para o meu deleite, já que ver algo diferente e original como o Barbican, não é algo tão corriqueiro, especialmente na região da “City”, centro financeiro de Londres. Mas antes de falar do programa e características físicas, é importante contextualizar um pouco.
A área usada para construção do Barbican era um vazio urbano de aproximadamente 15 hectares, provocado pelo bombardeio alemão da segunda guerra mundial chamado Blitz que devastou a região na noite de 29 de dezembro de 1940. A decisão de construir um conjunto arquitetônico multifuncional foi do poder municipal (City of London Corporation) que pretendeu dar vida à terra arrasada com uma proposta de cidade ideal, rompendo com a visão tradicional de como viver em edifícios e cidades. O termo Barbican, no inglês médio, está associado a uma estrutura de defesa fortificada e sua escolha remete às raízes do local onde havia uma antiga muralha romana.
Coube a três jovens arquitetos Peter Chamberlin, Geoffry Powell e Christoph Bon, a elaboração do projeto, que foi finalizado em 1959 e a construção se deu nas décadas posteriores (anos 60 e 70). O complexo foi oficialmente inaugurado em 1982 pela rainha da Inglaterra. Uma cidade dentro de uma cidade, com aproximadamente 2.000 apartamentos e 4.000 moradores, tudo isso com escolas, biblioteca, equipamentos culturais e comerciais, centro completo de artes, jardins, lagos, etc. A base do projeto parte da ideia de um pódio, erguido acima do nível da rua, permitindo que as pessoas transitem a pé pelo complexo fazendo uso de passarelas suspensas num espaço livre de carros, com diferentes rotas e que levam a jardins e lagos, proporcionando uma experiência visual e sensorial surpreendente. Ao entrar no lugar, a sensação mágica é que você está verdadeiramente numa “cidade” diferente. Meu plano de seguir um trajeto específico foi facilmente descartado e me deixei perder pelos caminhos. No final, não sei como, consegui cumprir o roteiro.



Ao todo o conjunto habitacional é formado por três torres de mais de 40 andares, conhecidas pelos nomes de Shakespeare, Cromwell e Lauderdale em homenagem a personagens históricos, além de 13 blocos horizontais (Terrace Blocks), com 07 andares e casas geminadas (Townhouses e as Mews), sendo as primeiras, Townhouses, de dimensões maiores, entre 03 a 05 andares, e maior sofisticação, e as Mews, mais compactas, de dois andares, inspiradas na estética de antigos estábulos e com uma atmosfera de vila. Apesar da diversidade de tipologias, é incontestável que o público-alvo do empreendimento eram jovens executivos e classes média e alta. É preciso deixar claro que em nenhum momento o Barbican foi projetado para habitação social.
As referências mencionam que o projeto foi influenciado pela obra de Le Corbusier, mais especificamente a Unité d’Habitation, projeto realizado na cidade de Marselha, na França, e na ideia de “cidade-jardim” vertical.



O aspecto que mais chama a atenção nas edificações do complexo, além da diversidade de escala e formas, é a textura das superfícies. A origem do termo brutalismo vem da expressão francesa “béton brut”, que significa concreto bruto ou aparente. O estilo brutalista, numa abordagem sintética, parte da ideia de honestidade, de uma arquitetura que não esconde seus materiais, exibe textura, estruturas, deixando tudo à vista. No caso do Barbican, tido como um ícone brutalista, o método de acabamento artesanal do concreto foi um pouco diferenciado, o que gerou uma rugosidade, uma aspereza adicional na superfície. Após o concreto ser moldado e seco, uma infinidade de operários usando martelos e cinzéis escavaram manualmente a superfície provocando pequenas crateras e causando um efeito visual e tátil diferenciado. É impossível não tocar as paredes pra sentir.



O mobiliário também se destaca por ter sido projetado como uma extensão da arquitetura por diferentes designers. Já as luminárias foram concebidas pelos arquitetos idealizadores do projeto, como parte integrante da estrutura. São incríveis. É impossível não enfatizar a beleza e imponência dos jardins e lagos, das cascatas de concreto, passarelas flutuantes e vegetação exuberante do complexo. Tudo isso cria um microclima contrastante em pleno centro financeiro londrino. E olhe que eu não falei ainda do conservatório tropical (uma estufa de grandes dimensões que abriga mais de 1.500 espécies de plantas). Estava fechado no dia em que visitei, mas pude avistar do lado de fora, o que me dá a certeza de que tenho que voltar.



Uma curiosidade é que o Barbican após ser inaugurado foi duramente criticado pela imprensa e urbanistas, chegando, inclusive a ser eleito como a edificação mais feia de Londres. Essa visão foi se transformando ao longo do tempo, o complexo passou ao status de patrimônio protegido grau II em 2001 e hoje é considerado uma joia brutalista e um exemplo de utopia urbana que deu certo. Nada como um dia atrás do outro não? Hoje o preço de algumas unidades pode chegar a 04 milhões de libras.
Outro aspecto que acho importante pontuar é que apesar da aparência robusta que pode num primeiro momento parecer uma barreira, o Barbican é um espaço que pode ser explorado livremente, com uma infinidade de acessos e entradas nos diferentes níveis abertos ao público.
Minha visita durou algumas horas, mas foi suficiente para me impactar fortemente. Tudo é superlativo no Barbican, até as sensações que provoca.
Referências:
BUTLER, Marianne. London Architecture. Londres: Metro Publications Ltd, 2019.
FOSTER, Hall. O complexo arte-arquitetura. São Paulo: Ubu Editora, 2017.
https://www.dezeen.com/2014/09/13/brutalist-buildings-barbican-estate-chamberlin-powell-bon/
https://www.archdaily.com/790453/ad-classics-barbican-estate-london-chamberlin-powell-bon
https://www.barbican.org.uk/
